14.10.09

E o salário, ó...

Quando começamos alguma coisa e somos totalmente "verdes" no que nos propusemos a fazer, ficamos perdidos. Não sabemos como agir, o que dizer, como fazer - dentre tantos outros aspectos que surgem quando você inicia uma nova etapa, um novo estágio.
Quando comecei a estagiar em um escritório de advocacia, o salário era "dado" em mãos - não havia depósito nem nada. Você recebia ali, no local de trabalho, e ia embora pra casa. Se fosse assaltado no meio do caminho, azar o seu. Um absurdo, né?! Mas, enfim! Não seria estágio se houvesse muitos benefícios.
Quando saí do escritório e passei no concurso do INSS, tive que abrir uma conta em determinado banco, pois o salário seria depositado mensalmente.
Eu, que nunca tive nem cartão telefônico até aquela data, não sabia mexer em nada: não sabia ver extrato, saldo, muito menos fazer transferência para outra conta. Mas aprendi a maravilha de colocar o dinheiro na poupança. E todo mês eu tirava R$100,00 dos R$260,00 que ganhava (já era menos que um salário mínimo na época - ano de 2006) e colocava na bendita poupança.
Passava um, dois, três, quatro meses e eu verificava todo santo dia pra saber quanto meu dinheiro tinha rendido. Bem... depois de cinco meses, num total de R$200,00 (eu menti quando disse que depositava todo mês, ok?!), eu consegui lucrar R$0,07.
Não, eu não errei!
SETE CENTAVOS.
Valeu, instituição bancária! Te devo essa, hein?

Próxima rodada de chopp é por minha conta.

23.9.09

Previsão do tempo

Chuva na região das costas!

Não entenderam?
Explico.
Um belo dia, quando ainda estava no INSS, cheguei com minha camisa verde de botão toda molhada - extremamente escurecida.
O procurador me olhou, surpreso, e disse:

-Tava chovendo de onde você veio?
E eu, no maior constrangimento, respondi:
-Não, é suor! [E mentalmente completei: É que eu pego ônibus que, da minha casa até a parada onde desço, dura uma hora e vinte minutos e ainda tenho que andar mais vinte minutos, debaixo do sol de meio dia, até aqui, seu fela da mãe!]

A partir daí, nos dias em que não aparentava que ia chover, só trabalhava de camisa escura, porque suava e ninguém via. Ou seja: preto e azul marinho eram fardas...
Podre, né?! Pois é! Eu me lembro que amigos meus, que andavam de paletó e de bus, ficaram até com brotoeja. Agora eu pergunto: tem pra quê a gente se empacotar nesse clima maldito?
[já escuto até os aplausos]
'Brigado!

8.8.09

Quem é você?

Uma das maiores dificuldades quando se entra no mundo jurídico é o tal do "jurisdiquês".
Como se a língua portuguesa não fosse suficientemente difícil, no ramo do Direito ainda se insiste em fazer valer o latim, o grego, o hebraico e tantas outras línguas arcaicas que, enfim, todas somadas, culminam no jurisdiquês.

Quando comecei a estagiar no TJPE, lia vários e vários processos - cada um, é claro, com suas próprias partes (as pessoas ou empresas litigantes). Mas quase sempre, em diversas demandas, os advogados citavam alguém chamado de "Sr. Meirinho".
E eu ficava me questionando: Quem danado é esse tal Meirinho que vive aparecendo nesses processos? Que criatura cabulosa! Está sempre envolvido em tudo quanto é processo. E mais: a intimidade dos advogados em chamá-lo carinhosamente por meirINHO.
O tal Meirinho deixava de cumprir uma ordem do juiz.
O tal Meirinho se dirigia à casa das partes.
O tal Meirinho fazia de um tudo!
Até que, em minha humilde condição de estagiário, lá fui eu perguntar à minha chefe.

- Mirella, esse tal Meirinho é muito estranho! Esse cara está em quase todo processo que eu vejo. Que homem é esse, pelo amor de Deus, que está envolvido em ação de alimentos, de guarda, de inventário?!

...e ninguém pode dizer que não alegro a vida das pessoas. Né?
Após servir de bobo da corte, ela me explicou.
Em suma: "meirinho" é uma outra forma de denominar o oficial de justiça.
Diz o dicionário:

s. m.
1. Antigo empregado judicial correspondente ao moderno oficial de justiça.

Finalmente, tudo fez sentido!
Porque eu já começava a imaginar esse Sr. Meirinho: calvo, beirando os cinquenta anos, baixinho (daí o "inho" no nome), um tanto fraudulento (daí estar em várias demandas), com os poucos cabelos pintados de preto, corrente de ouro no peito, relógio folgado no braço, camisa de botão amassada e... Ué! Me deixem imaginar.


Alô? É da Justiça? Sou o Meirinho.

21.5.09

Filosofia do dia

Estagiar é...

...ficar com sono durante o expediente, esperar pelo ônibus por 40 minutos, ir o trajeto todo em pé e ainda escutar alguém dizer que dirigir cansa.

19.5.09

Rapidinha

Esses dias eu me lembrei de quando meu irmão, em sua época estagiária, foi para a sua primeira entrevista.
Dentre algumas perguntas, foi-lhe indagado:

-Qual seu maior defeito?

-Ah... eu sou vingativo!

... ... ... ...

-Certo - dizia a entrevistadora, um tanto, digamos, chocada -. A gente te liga quando sair o resultado pra dizer se você passou.

E nunca ligaram, claro!
Porque estagiário vingativo é duplamente perigoso.
Porque mentira nem sempre é prejudicial.
Porque em entrevista de trabalho somos todos perfeitos.
Né?!

Quando eu for fazer minha próxima entrevista e me questionarem meu maior defeito, vou dizer a clássica resposta:

-Sou perfeccionista. Às vezes é qualidade, às vezes é defeito. E busco a paz mundial numa interminável batalha diária. [brilho nos olhos]

25.4.09

Se chorei ou se sorri...

...o importante é que gafes eu cometi!
E a gente aproveita e conta tudo aqui. Porque passar vergonha nunca é demais!

Esses dias Roberto Carlos, grande ídolo, fez 50 anos de carreira. E eu sempre segui, ou tentei seguir, os passos do eterno ícone pop romântico (porque tudo, afinal, sempre se resume ao pop romântico). E, nesse ínterim, me lembro de um dia, ainda na Procuradoria do INSS, em que vivi um momentinho RC - em fase de despedida de show.

Tudo começou quando Alessandra, querida amiga e instigadora das minhas besteiras, pediu que eu a acompanhasse a ir em outro andar do prédio a fim de solicitar um documento - ou algo do tipo. Na época, trabalhávamos no mesmo setor mas com chefes e salas diferentes. Eu tive a sorte de trabalhar com uma santa, uma mocinha de quase 70 anos a quem eu admiro e exalto pra sempre. Ela, coitada, tinha mais de um chefe, todos novinhos e cheios de energia pra trabalhar. Ou seja: ela sofria!
E aí, neste dia, pediram que ela fosse em determinado setor pra pegar o tal documento. Ela, sempre muito tímida e dependente de mim (ok, Alessandra, não me bate!), insistiu e eu fui. Chegando no tal setor, nos deparamos com uma sala enorme e com... duas pessoas! Ninguém nem sabia que a gente estava ali.
Era uma sala larga, longa, com várias mesas cheias de processos e dossiês empilhados; a gente nem conseguia ver o final da sala. E ficamos num balcão, esperando alguém nos atender. Até que, enfim, chegou um funcionário; pedimos o que queríamos e lá foi ele, lá pra dentro, executar a solicitação... enquanto esperávamos em pé, sem ter o que fazer.
Eu, já meio sem paciência e com minha hiperatividade aflorando, olhei pra frente e vi um pequeno jarro com algumas flores. Já rindo, passei pro outro lado do balcão, na calada, enquanto Alessandra arregalava os olhos sem entender. Peguei as flores, beijava uma a uma e dizia: Obrigado! Obrigado, Brasil! (emocionadíssimo!)
Ela ficou chocada - me achando ridículo e com vergonha e medo que alguém aparecesse. As flores, pelo chão todo, foram recolhidas por ela que, achava eu, iria colocar de volta no lugar. Mas uma fruta podre num cesto contamina as demais. E eis que Alessandra, invejosa, começou a beijar as flores, uma a uma, também!, e agradecia: Obrigada, meus fãs! Obrigada! Cem mil cópias vendidas. (numa vibe um tanto tímida)

Bem... acho que ninguém nos viu. Acho...
De toda sorte, nunca é demais dizer:

São tantas emoções!
Valeu, Brasil!

20.3.09

Capa de revista

Tem vezes que você acorda cedo, pega aquela listinha em cima da prateleira dos afazeres do dia e pensa: "É HOJE!".

Daí você vai pra faculdade - de ônibus! -, assiste duas aulas chatas, faz trabalho, vai na biblioteca, vai no passe fácil colocar dinheiro, pega uma fila miserável, fica debaixo de sol, vai pro estágio, fica sem almoçar, leva esporro do chefe porque chegou atrasado, volta pra casa naquele coletivo superlotado e, quando chega, mamãe querida ainda diz que não tem nada pronto pra comer, mas que, se você quiser, ela frita ovos.

Então você imagina: "É... eu teria muito o que contar numa entrevista ou nas páginas de um livro".

Mas você acorda anônimo e dorme anônimo, sem sequer uma notinha no jornal te parabenizando pela luta e pela força.
Ah, pobre estagiário sonhador!

Contudo, é reconfortante acessar sites de suma importância e nos depararmos com o empenho alheio.


"Natalie Portman limpa fezes do seu cachorro".


Acho justa a homenagem.
Um dia hei de constar nessas rerportagens:

"Cláudio espera 40 minutos pelo ônibus e cede assento a senhora idosa".